segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Joana

Joana estava acostumada à vida de casada. Sete anos com Paulo, isso não era pouca coisa. Os amigos eram os mesmos que os dele, manteve poucos da época de solteira. A rotina era baseada na dele, afinal, apesar de os dois terem serviço, ela tinha que ser a esposa. Paulo era homem de manias e horários, fora ensinado assim. Em sua casa, as regras eram as mesmas de sua mãe, até a arrumação do armário era parecida. Joana apenas não deixava os talheres e utensílios cortantes embaixo, com medo de as crianças se cortarem, também não deixava canecas e pratos, afinal, se eles se quebrassem... ela não queria nem pensar! Alguns poderiam dizer que esta era uma mulher feliz, pois o comodismo pode ser confundido com felicidade, mas ainda faltava algo.

Ela não podia pensar em viajar se a viagem não incluísse Paulo, pois tinha medo de seu marido se sentir sozinho, então, aguardava ansiosamente por suas férias para poderem sair! Mas Paulo sempre arrumava uma desculpa: falta de dinheiro, cansaço, odiava todos os lugares existentes no mundo! Ela, compreensiva, deixava os planos pro ano seguinte. Só saíam quando ele determinava, para os lugares que os dois sempre iam, era praticamente uma rotina dentro da rotina, e ele dizia que as saídas eram para quebrar a rotina! Ainda assim, a mulher se divertia! Estava com Paulo, que mais importava? Nada. Talvez seus filhos, mas estes estavam brincando na casa da avó, portanto, estavam bem! Aquela noite era para os dois aproveitarem umas horinhas pela cidade. Ainda assim, um vazio.

Então, Joana começou a ter alterações constantes de humor. Paulo dizia que ela estava louca, e talvez estivesse. Chorava todo dia, não ligava para falar com ninguém, até mesmo seus amigos pararam de visitá-la. Resolveu procurar ajuda psicológica. Primeira consulta. Segunda consulta. Terceira consulta. Na quarta, chamou o psicólogo de charlatão e bateu a porta. Quando saiu, arrependeu-se, não era culpa do profissional. O que ele dissera mesmo para que ela ficasse tão consternada? Decidiu que pensaria sobre isso em casa. Sua reflexão fora feita ponto a ponto:
"Entrei. Sentei-me. Conversei sobre minha semana. Ele falou algumas palavras. Fiquei nervosa. Saí.
Quais eram as palavras? Tinham a ver com meus filhos. Não, ele me elogiou sobre meus filhos. Fabi ensinou o irmão a contar até vinte, eles se dão bem.
Falou de mim. Estou cansada. Tenho uma rotina pesada. Cuidar de tudo não é fácil. Concordei.
Paulo não me ajuda. Isso! Foi essa frase! Fiquei brava. Paulo me ajuda muito!"
E ela parou por aí, esbravejando, afinal, já pensara demais. Porém, as palavras do psicólogo ficaram entaladas em uma parte de seu cérebro e não faziam a menor questão de mostrar que sairiam tão cedo. Muito pelo contrário, quando Paulo sentava-se no sofá, elas voltavam com tudo, fazendo sua cabeça doer. Mas Joana tratou disso com um bom remédio pra enxaqueca. Então, descobriu que precisava de férias. Foi falar com Paulo. Sair sozinha? Jamais! Precisava esperar as férias dele, que já estavam chegando (em apenas quatro meses). Planejou tudo desta vez, e ele até concordava, sorrindo. O psicólogo estava errado. Os dois foram passear em um lugar diferente, era muito divertido! O psicólogo estava errado. Aproximando-se a data da viagem, os dois pareciam recém-casados. O psicólogo estava errado. Dois dias antes da viagem, Paulo arrumou um gasto novo: trocar seu computador, que estava muito velho. O psicólogo estava certo. Pratos voaram naquela noite. O computador tinha três anos, ainda não estava velho, era um gasto desnecessário. Pior ainda: Joana era moça moderna, entendida de computadores, sabia que Paulo poderia trocar peças e o processador, pagando bem menos do que se comprasse um novo! Mas Paulo teimou, Joana chorou e ficou quieta.

A partir daquele dia, Paulo começou a ter defeitos. Ele chegava em casa cansado do trabalho e ficava só sentado no sofá ou no computador. Só reclamava do dia. Nunca elogiava Joana em tarefas pequenas. Aliás, quando elogiava Joana? Ele não a apreciava. Ela havia se tornado fechada com ele, rude, até mesmo sem respeito. Em um último lapso de consciência, Joana pensou se não havia mimado demais Paulo, e chegara à conclusão de que sim, ela sempre dizia a ele para não se preocupar, pois daria conta de tudo, mas ele costumava apreciar cada coisa que ela fazia, dizia que ela era a melhor. O que aconteceu? Por que perderam isso? Ela sabia a resposta: quando a pessoa se acomoda... sim, ambos se acomodaram. Aquela não era uma relação saudável, talvez nem tivesse amor mesmo. Os dois se mantinham assim, porque assim se habituaram. Sim, era essa a resposta! Os dois enfrentavam um marasmo, aquela vida não era boa para ninguém. Joana resolveu conversar com Paulo. Explicou-lhe que não estava feliz e o que os dois poderiam fazer para melhorar. Paulo a acusou de ingratidão. Como assim? Ele já não fazia o suficiente? Tinha ainda que ceder àqueles caprichos? A casa virou um pé de guerra. Joana resolveu ir aplicando a mudança aos poucos. Seu marido não as aceitava. Brigavam ainda mais. Fabi se calara. Lucas, que era bem pequeno ainda, nada entendia. Quando Fabi começou a ficar doente, Joana não teve mais dúvidas: ou voltava ao marasmo, ou saía de vez dele. Chorou muito, mas quem prova o gostinho da mudança uma vez não consegue voltar atrás. Agora, o caminho era somente aquele, para frente. Voltou ao psicólogo. O mais difícil era engolir o orgulho, mas o profissional já se habituara àquela situação. Ela precisava ser firme, isto é, se realmente estava decidida. Era hora de ter uma conversa.

Com as crianças na avó, o casal conversou. Joana estava impassível, Paulo até chorava. Gritou que ninguém a amaria como ele (e ela pensou que isso era uma boa notícia). As malas já estavam prontas, ela simplesmente foi embora. Enquanto ele se manteve na mesmice, ela começou a ser uma mãe melhor. Fabi até a perdoou. Lucas continuava concentrado em um livro cheio de figuras que ganhara da tia. Marlene voltou a visitá-la, afinal, Paulo não estava mais por perto para tratá-la com desdém. Três meses se passaram, ela conheceu José, tomou um café com Túlio, saiu para jantar com Renato e trocou mensagens com Henrique. Não levou nenhum deles para a cama, apenas aproveitou a companhia. Continuou a trabalhar no mesmo emprego, mas resolveu voltar a estudar. Conheceu Anderson. Ele era mais novo, mas sua maturidade era impressionante. Haviam passado pelo mesmo processo, então, entendiam-se com facilidade. Tornaram-se melhores amigos. Começaram a frequentar a casa um do outro. Ele tinha um filho, que logo se deu bem com Lucas e Fabi. Um não saía sem o outro. Eram como irmãos. Começaram a compartilhar os amigos da época de solteiro. Os amigos se davam bem uns com os outros. Era perfeito! Eles se ajudavam. Uma vez por semana, faziam faxina na casa dele e na dela, os dois. Quando se formaram, empregaram-se e melhoraram de vida. Contrataram a mesma faxineira. Foi assim por anos. Anderson casou-se com uma moça do trabalho, esta considerava Joana uma cunhada. As duas eram grandes amigas. Joana resolveu namorar Henrique à distância, assim, caso terminassem, os filhos não sentiriam. E Paulo, depois de tanto tentar reaver a esposa, conheceu Amélia, com quem vive exatamente a relação que Joana pediu para terem antes de terminarem.

Tudo acaba bem...

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