Dominique acorda às 7h da manhã. Não porque quer, mas porque se comprometeu – mais uma vez – a se dedicar ao emagrecimento. Dá uma espreguiçada longa, aquele bocejo animalesco como uma leoa, o bafo com uma mistura de vodka com leite condensado. Não deveria ter cedido aos encantos dos drinks. O corpo dói um pouco, mas é segunda-feira, dia de começar a dieta, os exercícios e encarar o suco detox. Levanta-se preguiçosamente e calça os chinelos de pano. Arrasta os pés até o banheiro, onde olha para o espelho e se depara com aquele cabelo nas alturas, parecendo um carvalho centenário, e as belas olheiras de panda conquistadas na noite anterior. Dá uma risadinha interna. “Pelo menos tenho uma aparência ecológica”, pensa. Piadas toscas eram com ela mesma, especialmente se ela fosse o alvo.
Entra no chuveiro ao som de uma música animada, típica de academia. Não demora muito, tem que racionar a água. Já mandaram até evadir a cidade. Não pode se dar ao luxo de relaxar no banho. Não mais. Inclusive, a música é um truque de economia. Ela checa as duas primeiras músicas e vê quanto tempo tem cada uma. Ao final da última, já tem que estar seca. Tem funcionado bem. Depois do banho, escova os dentes. Lamenta-se, deveria ter esperado o café da manhã. Suco de couve já deve ser estranho, misturado à pasta de dente então... e ela estava certa. Ao bater o suco com aquela aparência nada amigável, já olha com uma cara tão boa quanto.
- Vai ser bom, o gosto é bom! - tenta convencer-se.
Respira fundo e toma. A consistência de vômito indo no contrafluxo e o gosto de salada na bebida fazem com que ela comece a se arrepender. Mas não! Não tão cedo! Desta vez, aguentaria firmemente a luta contra a balança e ficaria gostosa! E neste pensamento, a gororoba matinal desce rasgando e fazendo-a pensar em algo menos nojento... tipo lesmas de jardim.
Volta para o quarto e encara a arrumação. No cabelo, um bocado de creme para ficar quieto. Com a estática, seus fios finos e lisos como espaguete viram uma juba de dar inveja a qualquer leão. Amarra bem firme com um elástico potente. A roupa, coisa simples, que tinha em casa mesmo. Top preto, calça legging preta e uma camiseta larga e cortada escrita “WORK IT BITCH”. Achava que o humor lhe daria forças para puxar peso. A calcinha, achou melhor colocar uma velha e confortável, uma branquinha que servia só para ficar em casa em tempos vermelhos ou quando não haveria qualquer chance de transar. Bom, a academia era perto, ela poderia voltar para casa e tomar um segundo banho – porque suor de malhação não dá a possibilidade de ficar sem banho.
Tênis, meia, tudo em ordem. Garrafinha, toalhinha, tudo o que era "inha", levava a mochilinha para sair de gordinha para gatinha. Cinco minutos bastavam para chegar. Conversou com a moça da recepção. A primeira aula era teste, portanto, grátis. Ela achou que não havia melhor incentivo que este, começar o #ProjetoSarada recebendo uma aula free. Entra e o instrutor a recebe. E que instrutor! A turma da manhã recebia muitos idosos, poucas pessoas trabalhavam à tarde como ela. Por isso, uma grande esperança surgiu em sua cabeça. Ficar gostosa e arrumar um namorado instrutor já riscavam dois itens de sua lista de promessas de ano novo que não eram cumpridas havia uns 12 anos. Desta vez, seria diferente!
Ele explica a série de exercícios, que teria que ser explicada novamente. Não era culpa dela. Ninguém mandou aquele loiro de olhos verdes e braços maiores que o do robô do Transformers ser justamente o guia dela, que já estava sem sexo há eras – 3 longas semanas. Dominique inicia a série: esteira, bicicleta, braço, pernas, coxas, tudo é trabalhado sem piedade. A moça sente algumas partes do corpo doerem, partes estas que sequer sabia que existiam. Foi a pior forma de descobrir. Mais braço, pesinhos, sequências múltiplas de 3 ou de 5. Respira... abdominal... puxa! Quanto cansaço! Estava ali havia apenas duas horas e parecia que tinha entrado no Natal. Força, foco, fé! Então, chegou o momento de trabalhar os glúteos. Ficar com a bunda sarada para rebolar um funk era uma boa ideia, mesmo que ela odiasse o funk. O negócio era rebolar. Ela sobe no aparelho em uma posição muito estranha. Fica de quatro e sua função é empurrar uma alavanca dando coices no ar. Ri internamente de novo: “Pareço uma mula... muito sexy.”
Aos poucos, ela faz o exercício. De repente, quando ela repara, o instrutor bonitão está olhando para ela. Isso a faz se sentir bem, diferente daquele cretino de três semanas atrás chamando ela de gostosa. Era evidente que ela estava gorda. Não dava para ser gostosa gorda, ou dava? Não, não dava. "Nem pense nisso!" Continua... Um coice, mais um coice, mais um, mais um... Quando ela repara, ele está com um outro rapaz, que surgiu do nada, cujo braço era o dobro do dele – e a beleza também. “Uau! Arrasei!”
A série de exercícios chega ao fim, mas ela quer continuar ali, chamando a atenção de todos. E não demora muito quando até alguns coroas gatos estão olhando para ela. O ego infla infinitamente. Ela continua. O instrutor a avisa para parar que já acabou e ela, sem graça, dá a desculpa de que havia perdido a conta. Cansada, ela vai ao banheiro aliviar os inúmeros goles d’água que ingeriu ao longo desse tempo. Está feliz. Chamou a atenção de todos. Quando ela olha para baixo, uma visão a surpreende: um buraco na calça do tamanho de um cânion, bem na bunda, deixou a calcinha branca e velha toda à mostra. A lembrança do exercício a assombra instantaneamente. Todos viram. Ela não chamou a atenção, mas a calcinha dela sim. E agora? Como voltar para lá? Como sair de fininho? Como escapar dessa humilhação? O estômago dói, a cabeça pesa e ela surta, pegando todas as suas coisas e saindo correndo como se o prédio estivesse em chamas. Chega em casa e se encolhe em posição fetal no chuveiro.
- Mas que droga! Não passo nem pela calçada daquele lugar, nunca mais!
Toma banho, se arruma e decide almoçar no meio do caminho, no restaurante onde está acostumada. Pega seu lugar habitual e abre os e-mails no celular. Mas que droga, mudaram o Wi-Fi! Ela chama a recepcionista que diz que está tudo normal, mas ela garante que não. Chama o gerente. Aquilo não poderia estar acontecendo. Ô, dia de corno! De repente, o dono do restaurante se aproxima. Ela bate a mão na testa, pois era ele o cretino que a chamara de gostosa na cama, mesmo sabendo que ela é apenas uma gorda.
- Me disseram que tinha uma reclamação quanto ao Wi-Fi. Vim conferir pessoalmente.
- É, mudaram a senha e a recepcionista não quer me passar!
- Pois não. A senha é: ACEITO!
Ela tenta.
- Não está funcionando!
Ele sorri.
- É porque você está tentando na rede errada.
Olha novamente e encontra uma rede chamada “ACEITA SE CASAR COMIGO?”. Ela se assusta.
- Só funciona com uma senha.
Dominique ri. Queria dar uma boa resposta, mas o caso deles durava havia anos. Digita ACEITO. A senha entra e milhares de mensagens e e-mails invadem seu aparelho, mas ela não liga. Ele se senta na frente dela e dá risada.
- Seu favorito está vindo.
- Espaguete ao molho de vinho com uma costela barbecue?
- Exatamente!
Ela sorri e lhe dá um beijo ardente, que ele corresponde.
- Você me conhece.
Ele ri.
- E o que aconteceu com o projeto gostosa?
Ela ri.
- Kevin... cale a boca!
E assim nasce uma relação de amor dela com seu peso e dele com tudo o que ele adora nela: ELA.
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