segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dominique

Dominique acorda às 7h da manhã. Não porque quer, mas porque se comprometeu – mais uma vez – a se dedicar ao emagrecimento. Dá uma espreguiçada longa, aquele bocejo animalesco como uma leoa, o bafo com uma mistura de vodka com leite condensado. Não deveria ter cedido aos encantos dos drinks. O corpo dói um pouco, mas é segunda-feira, dia de começar a dieta, os exercícios e encarar o suco detox. Levanta-se preguiçosamente e calça os chinelos de pano. Arrasta os pés até o banheiro, onde olha para o espelho e se depara com aquele cabelo nas alturas, parecendo um carvalho centenário, e as belas olheiras de panda conquistadas na noite anterior. Dá uma risadinha interna. “Pelo menos tenho uma aparência ecológica”, pensa. Piadas toscas eram com ela mesma, especialmente se ela fosse o alvo.

Entra no chuveiro ao som de uma música animada, típica de academia. Não demora muito, tem que racionar a água. Já mandaram até evadir a cidade. Não pode se dar ao luxo de relaxar no banho. Não mais. Inclusive, a música é um truque de economia. Ela checa as duas primeiras músicas e vê quanto tempo tem cada uma. Ao final da última, já tem que estar seca. Tem funcionado bem. Depois do banho, escova os dentes. Lamenta-se, deveria ter esperado o café da manhã. Suco de couve já deve ser estranho, misturado à pasta de dente então... e ela estava certa. Ao bater o suco com aquela aparência nada amigável, já olha com uma cara tão boa quanto.

- Vai ser bom, o gosto é bom! - tenta convencer-se.

Respira fundo e toma. A consistência de vômito indo no contrafluxo e o gosto de salada na bebida fazem com que ela comece a se arrepender. Mas não! Não tão cedo! Desta vez, aguentaria firmemente a luta contra a balança e ficaria gostosa! E neste pensamento, a gororoba matinal desce rasgando e fazendo-a pensar em algo menos nojento... tipo lesmas de jardim.

Volta para o quarto e encara a arrumação. No cabelo, um bocado de creme para ficar quieto. Com a estática, seus fios finos e lisos como espaguete viram uma juba de dar inveja a qualquer leão. Amarra bem firme com um elástico potente. A roupa, coisa simples, que tinha em casa mesmo. Top preto, calça legging preta e uma camiseta larga e cortada escrita “WORK IT BITCH”. Achava que o humor lhe daria forças para puxar peso. A calcinha, achou melhor colocar uma velha e confortável, uma branquinha que servia só para ficar em casa em tempos vermelhos ou quando não haveria qualquer chance de transar. Bom, a academia era perto, ela poderia voltar para casa e tomar um segundo banho – porque suor de malhação não dá a possibilidade de ficar sem banho.

Tênis, meia, tudo em ordem. Garrafinha, toalhinha, tudo o que era "inha", levava a mochilinha para sair de gordinha para gatinha. Cinco minutos bastavam para chegar. Conversou com a moça da recepção. A primeira aula era teste, portanto, grátis. Ela achou que não havia melhor incentivo que este, começar o #ProjetoSarada recebendo uma aula free. Entra e o instrutor a recebe. E que instrutor! A turma da manhã recebia muitos idosos, poucas pessoas trabalhavam à tarde como ela. Por isso, uma grande esperança surgiu em sua cabeça. Ficar gostosa e arrumar um namorado instrutor já riscavam dois itens de sua lista de promessas de ano novo que não eram cumpridas havia uns 12 anos. Desta vez, seria diferente!

Ele explica a série de exercícios, que teria que ser explicada novamente. Não era culpa dela. Ninguém mandou aquele loiro de olhos verdes e braços maiores que o do robô do Transformers ser justamente o guia dela, que já estava sem sexo há eras – 3 longas semanas. Dominique inicia a série: esteira, bicicleta, braço, pernas, coxas, tudo é trabalhado sem piedade. A moça sente algumas partes do corpo doerem, partes estas que sequer sabia que existiam. Foi a pior forma de descobrir. Mais braço, pesinhos, sequências múltiplas de 3 ou de 5. Respira... abdominal... puxa! Quanto cansaço! Estava ali havia apenas duas horas e parecia que tinha entrado no Natal. Força, foco, fé! Então, chegou o momento de trabalhar os glúteos. Ficar com a bunda sarada para rebolar um funk era uma boa ideia, mesmo que ela odiasse o funk. O negócio era rebolar. Ela sobe no aparelho em uma posição muito estranha. Fica de quatro e sua função é empurrar uma alavanca dando coices no ar. Ri internamente de novo: “Pareço uma mula... muito sexy.”

Aos poucos, ela faz o exercício. De repente, quando ela repara, o instrutor bonitão está olhando para ela. Isso a faz se sentir bem, diferente daquele cretino de três semanas atrás chamando ela de gostosa. Era evidente que ela estava gorda. Não dava para ser gostosa gorda, ou dava? Não, não dava. "Nem pense nisso!" Continua... Um coice, mais um coice, mais um, mais um... Quando ela repara, ele está com um outro rapaz, que surgiu do nada, cujo braço era o dobro do dele – e a beleza também. “Uau! Arrasei!”

A série de exercícios chega ao fim, mas ela quer continuar ali, chamando a atenção de todos. E não demora muito quando até alguns coroas gatos estão olhando para ela. O ego infla infinitamente. Ela continua. O instrutor a avisa para parar que já acabou e ela, sem graça, dá a desculpa de que havia perdido a conta. Cansada, ela vai ao banheiro aliviar os inúmeros goles d’água que ingeriu ao longo desse tempo. Está feliz. Chamou a atenção de todos. Quando ela olha para baixo, uma visão a surpreende: um buraco na calça do tamanho de um cânion, bem na bunda, deixou a calcinha branca e velha toda à mostra. A lembrança do exercício a assombra instantaneamente. Todos viram. Ela não chamou a atenção, mas a calcinha dela sim. E agora? Como voltar para lá? Como sair de fininho? Como escapar dessa humilhação? O estômago dói, a cabeça pesa e ela surta, pegando todas as suas coisas e saindo correndo como se o prédio estivesse em chamas. Chega em casa e se encolhe em posição fetal no chuveiro.
- Mas que droga! Não passo nem pela calçada daquele lugar, nunca mais!

Toma banho, se arruma e decide almoçar no meio do caminho, no restaurante onde está acostumada. Pega seu lugar habitual e abre os e-mails no celular. Mas que droga, mudaram o Wi-Fi! Ela chama a recepcionista que diz que está tudo normal, mas ela garante que não. Chama o gerente. Aquilo não poderia estar acontecendo. Ô, dia de corno! De repente, o dono do restaurante se aproxima. Ela bate a mão na testa, pois era ele o cretino que a chamara de gostosa na cama, mesmo sabendo que ela é apenas uma gorda.

- Me disseram que tinha uma reclamação quanto ao Wi-Fi. Vim conferir pessoalmente.
- É, mudaram a senha e a recepcionista não quer me passar!
- Pois não. A senha é: ACEITO!
Ela tenta.
- Não está funcionando!
Ele sorri.
- É porque você está tentando na rede errada.
Olha novamente e encontra uma rede chamada “ACEITA SE CASAR COMIGO?”. Ela se assusta.
- Só funciona com uma senha.
Dominique ri. Queria dar uma boa resposta, mas o caso deles durava havia anos. Digita ACEITO. A senha entra e milhares de mensagens e e-mails invadem seu aparelho, mas ela não liga. Ele se senta na frente dela e dá risada.
- Seu favorito está vindo.
- Espaguete ao molho de vinho com uma costela barbecue?
- Exatamente!
Ela sorri e lhe dá um beijo ardente, que ele corresponde.
- Você me conhece.
Ele ri.
- E o que aconteceu com o projeto gostosa?
Ela ri.
- Kevin... cale a boca!
E assim nasce uma relação de amor dela com seu peso e dele com tudo o que ele adora nela: ELA.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Joana

Joana estava acostumada à vida de casada. Sete anos com Paulo, isso não era pouca coisa. Os amigos eram os mesmos que os dele, manteve poucos da época de solteira. A rotina era baseada na dele, afinal, apesar de os dois terem serviço, ela tinha que ser a esposa. Paulo era homem de manias e horários, fora ensinado assim. Em sua casa, as regras eram as mesmas de sua mãe, até a arrumação do armário era parecida. Joana apenas não deixava os talheres e utensílios cortantes embaixo, com medo de as crianças se cortarem, também não deixava canecas e pratos, afinal, se eles se quebrassem... ela não queria nem pensar! Alguns poderiam dizer que esta era uma mulher feliz, pois o comodismo pode ser confundido com felicidade, mas ainda faltava algo.

Ela não podia pensar em viajar se a viagem não incluísse Paulo, pois tinha medo de seu marido se sentir sozinho, então, aguardava ansiosamente por suas férias para poderem sair! Mas Paulo sempre arrumava uma desculpa: falta de dinheiro, cansaço, odiava todos os lugares existentes no mundo! Ela, compreensiva, deixava os planos pro ano seguinte. Só saíam quando ele determinava, para os lugares que os dois sempre iam, era praticamente uma rotina dentro da rotina, e ele dizia que as saídas eram para quebrar a rotina! Ainda assim, a mulher se divertia! Estava com Paulo, que mais importava? Nada. Talvez seus filhos, mas estes estavam brincando na casa da avó, portanto, estavam bem! Aquela noite era para os dois aproveitarem umas horinhas pela cidade. Ainda assim, um vazio.

Então, Joana começou a ter alterações constantes de humor. Paulo dizia que ela estava louca, e talvez estivesse. Chorava todo dia, não ligava para falar com ninguém, até mesmo seus amigos pararam de visitá-la. Resolveu procurar ajuda psicológica. Primeira consulta. Segunda consulta. Terceira consulta. Na quarta, chamou o psicólogo de charlatão e bateu a porta. Quando saiu, arrependeu-se, não era culpa do profissional. O que ele dissera mesmo para que ela ficasse tão consternada? Decidiu que pensaria sobre isso em casa. Sua reflexão fora feita ponto a ponto:
"Entrei. Sentei-me. Conversei sobre minha semana. Ele falou algumas palavras. Fiquei nervosa. Saí.
Quais eram as palavras? Tinham a ver com meus filhos. Não, ele me elogiou sobre meus filhos. Fabi ensinou o irmão a contar até vinte, eles se dão bem.
Falou de mim. Estou cansada. Tenho uma rotina pesada. Cuidar de tudo não é fácil. Concordei.
Paulo não me ajuda. Isso! Foi essa frase! Fiquei brava. Paulo me ajuda muito!"
E ela parou por aí, esbravejando, afinal, já pensara demais. Porém, as palavras do psicólogo ficaram entaladas em uma parte de seu cérebro e não faziam a menor questão de mostrar que sairiam tão cedo. Muito pelo contrário, quando Paulo sentava-se no sofá, elas voltavam com tudo, fazendo sua cabeça doer. Mas Joana tratou disso com um bom remédio pra enxaqueca. Então, descobriu que precisava de férias. Foi falar com Paulo. Sair sozinha? Jamais! Precisava esperar as férias dele, que já estavam chegando (em apenas quatro meses). Planejou tudo desta vez, e ele até concordava, sorrindo. O psicólogo estava errado. Os dois foram passear em um lugar diferente, era muito divertido! O psicólogo estava errado. Aproximando-se a data da viagem, os dois pareciam recém-casados. O psicólogo estava errado. Dois dias antes da viagem, Paulo arrumou um gasto novo: trocar seu computador, que estava muito velho. O psicólogo estava certo. Pratos voaram naquela noite. O computador tinha três anos, ainda não estava velho, era um gasto desnecessário. Pior ainda: Joana era moça moderna, entendida de computadores, sabia que Paulo poderia trocar peças e o processador, pagando bem menos do que se comprasse um novo! Mas Paulo teimou, Joana chorou e ficou quieta.

A partir daquele dia, Paulo começou a ter defeitos. Ele chegava em casa cansado do trabalho e ficava só sentado no sofá ou no computador. Só reclamava do dia. Nunca elogiava Joana em tarefas pequenas. Aliás, quando elogiava Joana? Ele não a apreciava. Ela havia se tornado fechada com ele, rude, até mesmo sem respeito. Em um último lapso de consciência, Joana pensou se não havia mimado demais Paulo, e chegara à conclusão de que sim, ela sempre dizia a ele para não se preocupar, pois daria conta de tudo, mas ele costumava apreciar cada coisa que ela fazia, dizia que ela era a melhor. O que aconteceu? Por que perderam isso? Ela sabia a resposta: quando a pessoa se acomoda... sim, ambos se acomodaram. Aquela não era uma relação saudável, talvez nem tivesse amor mesmo. Os dois se mantinham assim, porque assim se habituaram. Sim, era essa a resposta! Os dois enfrentavam um marasmo, aquela vida não era boa para ninguém. Joana resolveu conversar com Paulo. Explicou-lhe que não estava feliz e o que os dois poderiam fazer para melhorar. Paulo a acusou de ingratidão. Como assim? Ele já não fazia o suficiente? Tinha ainda que ceder àqueles caprichos? A casa virou um pé de guerra. Joana resolveu ir aplicando a mudança aos poucos. Seu marido não as aceitava. Brigavam ainda mais. Fabi se calara. Lucas, que era bem pequeno ainda, nada entendia. Quando Fabi começou a ficar doente, Joana não teve mais dúvidas: ou voltava ao marasmo, ou saía de vez dele. Chorou muito, mas quem prova o gostinho da mudança uma vez não consegue voltar atrás. Agora, o caminho era somente aquele, para frente. Voltou ao psicólogo. O mais difícil era engolir o orgulho, mas o profissional já se habituara àquela situação. Ela precisava ser firme, isto é, se realmente estava decidida. Era hora de ter uma conversa.

Com as crianças na avó, o casal conversou. Joana estava impassível, Paulo até chorava. Gritou que ninguém a amaria como ele (e ela pensou que isso era uma boa notícia). As malas já estavam prontas, ela simplesmente foi embora. Enquanto ele se manteve na mesmice, ela começou a ser uma mãe melhor. Fabi até a perdoou. Lucas continuava concentrado em um livro cheio de figuras que ganhara da tia. Marlene voltou a visitá-la, afinal, Paulo não estava mais por perto para tratá-la com desdém. Três meses se passaram, ela conheceu José, tomou um café com Túlio, saiu para jantar com Renato e trocou mensagens com Henrique. Não levou nenhum deles para a cama, apenas aproveitou a companhia. Continuou a trabalhar no mesmo emprego, mas resolveu voltar a estudar. Conheceu Anderson. Ele era mais novo, mas sua maturidade era impressionante. Haviam passado pelo mesmo processo, então, entendiam-se com facilidade. Tornaram-se melhores amigos. Começaram a frequentar a casa um do outro. Ele tinha um filho, que logo se deu bem com Lucas e Fabi. Um não saía sem o outro. Eram como irmãos. Começaram a compartilhar os amigos da época de solteiro. Os amigos se davam bem uns com os outros. Era perfeito! Eles se ajudavam. Uma vez por semana, faziam faxina na casa dele e na dela, os dois. Quando se formaram, empregaram-se e melhoraram de vida. Contrataram a mesma faxineira. Foi assim por anos. Anderson casou-se com uma moça do trabalho, esta considerava Joana uma cunhada. As duas eram grandes amigas. Joana resolveu namorar Henrique à distância, assim, caso terminassem, os filhos não sentiriam. E Paulo, depois de tanto tentar reaver a esposa, conheceu Amélia, com quem vive exatamente a relação que Joana pediu para terem antes de terminarem.

Tudo acaba bem...